O Japao e minha casa

Herika, brasileira, filha de japoneses embarcou no sonho do mudar para o Japão há 16 anos. Não pensa mais em voltar para o Brasil, mas talvez tenha que voltar; sua filha é uma criança sem pátria. Não é aceita como japonesa e nem como brasileira. Fragmentos

Porque deixou o Brasil?
Vim para cá por causa da ilusão do dinheiro fácil. Ouvia tantas histórias de pessoas que vinham para cá e em 2 anos juntavam o suficiente para poder comprar casa, carro e montar algum negócio para poder se manter.

É verdade?
Sim, existem pessoas que conseguiram isso, mas são casos raríssimos. Eu não tenho nem casa, nem carro, nem nada no Brasil, apenas minha família e muitas saudades.

Porque você não tem nada no Brasil?
Ganha-se muito bem aqui, não nego. O salário de uma mulher (que é em média 2/3 do salário do homem) gira em torno de US$ 2,300.00, se ela fizer 2 horas extras todos os dias. Acontece que aqui o custo de vida é bem alto também. Pagando-se todas as despesas sobra muito pouco para poder guardar. Afinal comemos, moramos, passeamos, enfim vivemos.

Quer continuar no Japão?
80.jpgDepois de 16 anos, eu me acostumei demais com a vida que levo aqui. Gosto muito do Japão, tem suas coisas ruins como em qualquer lugar, mas sou brasileira e minha família mora no Brasil. Não me importo de passar o resto da minha vida aqui, mas quero morrer e ser enterrada no Brasil. É mais uma questão sentimental do que prática.

Sua filha nasceu no Japão?
Tive minha filha aqui, apesar de todo o medo que senti. Os costumes são muito diferentes e a gente se sente super insegura, eu pelo menos me senti. Existe a diferença cultural e a barreira da língua, apesar de eu saber falar, pois meus pais são japoneses e falo japonês desde sempre.

Qual a principal diferença?
É o relacionamento médico/paciente. No Brasil o médico quer ser seu amigo, dá tapinha nas costas, faz brincadeiras, tenta te deixar à vontade… Aqui eles fazem questão de manter a distância. Ele não é seu amigo, é um profissional que está te examinando.

Como são as consultas?
As consultas são apressadas e por isso dá a impressão de pouco caso. Muita gente diz que a medicina daqui é atrasada, em alguns pontos eu concordo que seja, mas eles têm uma tecnologia que o Brasil não tem ainda.

Sua filha tem nacionalidade japonesa?
Nem japonesa e nem brasileira. Minha filha é apátrida, pois no Japão, filhos de estrangeiros tem a mesma nacionalidade dos pais. No Brasil crianças nascidas fora do país depois de 1994 terão que comprovar residência no Brasil quando completarem 18 anos e escolher se querem ser brasileiros. Se não tiver pelo menos 1 ano morando no Brasil perdem a nacionalidade.

Como fica a situação da sua filha?
Ela não poderá ficar em lugar nenhum pois não conseguirá visto em nenhum país. Um absurdo que estamos tentando mudar. Existe uma comunidade no Orkut que aborda o assunto. brasileironoexterior

Quais seus planos?
É difícil fazer planos nesse sentido, pois além da existência da dita lei, o governo japonês está dificultando a renovação de vistos para estrangeiros de determinados países.

Porque?
Eles alegam que está aumentando os crimes cometidos por latinos americanos e por enquanto para renovar é preciso os atestados de antecedentes criminais emitidos pela Polícia Federal e Estadual timbrados e carimbados.

Tem falar japonês para ter o visto renovado?
Tem um projeto Assembléia japonesa, se aprovado, só estrangeiros que falam japonês terão o visto renovado.

Você acha que vai ser aprovado?
Estamos lutando para que um absurdo desses não seja aprovado. Eu tenho visto permanente e não preciso me preocupar, minha filha também tem o visto permanente, mas meu marido, sempre muito sossegado, tem que renovar o visto a cada 3 anos e quase não fala japonês.

Se o Brasil não mudar a lei o que vai acontecer com sua filha?
Se continuar do jeito que está, quando ela completar 17 anos tenho que me mudar para o Brasil para garantir a nacionalidade brasileira dela. Se aqui fosse como no Brasil, que adota a política jus-solis, apesar de um pouco triste eu a deixaria com a nacionalidade japonesa e daria um jeito de registrá-la no consulado para que tivesse dupla nacionalidade. Mas como aqui é jus-sanguinis temos essa dor de cabeça agora.

É revoltante ter uma filha sem pátria?
O que revolta é o descaso dos políticos em nos atender, uma vez que brasileiros no exterior não votam para deputado, pelo menos essa foi uma colocação de uma pessoa que está lutando pela causa na Suiça. A maioria dos países da Europa também adotam o jus-sanguinis e existem milhares de brasileiros que ficarão apátridas daqui a alguns anos se nada for mudado.

Eles têm preconceito contra estrangeiros?
Sim, eles são preconceituosos. Mas preconceito existe em qualquer lugar do mundo. Lembro quantas vezes me mandaram vir embora pro Japão quando morava no Brasil. Seja no trânsito, seja na escola, uma vez em um vestibular me xingaram na porta do local falando que eu (japonesa) não tinha que estar ali prestando vestibular para tirar vaga de brasileiros. Lembro de quantas vezes quando criança tive que ouvir a musiquinha: “Japonês calabrez, come sapo todo mês.” Ou: “Japonês tá fudido, come repolho, peido fedido.” Maldade de criança? Talvez, mas mesmo depois de adulta eu ouvi vários absurdos que mostram o preconceito e racismo naquele país que se diz “aberto a todos”.

Quem sofre mais com o preconceito?
Estrangeiros sem descendência não sofrem tanto preconceito, pois eles aceitam que não conheçam os costumes deles, mas com descendente a coisa é um pouco diferente.

Como assim?
Eles acham que temos a obrigação de saber falar, escrever, saber a cultura, a história, o que claro, não acontece. A maioria que vem para cá, vem sem saber falar, que dirá então escrever ou ler.

Está trabalhando agora?
No momento estou cuidando da casa e da minha filha. Parei de trabalhar quando estava grávida, tive uma gravidez complicada, enjoei muito, passei muito mal e não tinha condições de sair de casa. Mas desde que cheguei aqui esta é a primeira vez que fico parada.

Esse ritmo de trabalha das fábricas japonesas não deixa os brasileiros loucos?
Aqui se trabalha demais com certeza, talvez um ritmo meio louco como você diz, mas enlouquecer com isso também depende de cada pessoa. Eu já cheguei a trabalhar das 8:00 às 17:00 em uma fábrica e ia correndo para outra que entrava às 17:30 e saia às 24:00, na primeira fábrica, trabalhava de segunda à sexta, na segunda de terça a domingo, sábados eu pegava o dia inteiro das 9:00 às 24:00. Estava podre com certeza, mas não louca (acho), tinha amigos e sempre que podia ia visitá-los ou os recebia em casa. Sempre conseguia um tempo para respirar e me distrair. Muita gente acaba pirando por acabar se isolando, não tentam fazer amizades, nem com brasileiros, nem com japoneses. Solidão vira a cabeça de qualquer pessoa, não excesso de trabalho.

Onde mora?
Atualmente moro na província de Shizuoka. É um fim de mundo para falar a verdade. A cidade está encrustada em uma montanha aos pés do Monte Fuji. Estou aqui há 4 anos e gosto muito do sossego dessa cidade. Ultimamente estou fotografando mais as paisagens do lugar onde moro, coisa que nunca me interessei em fazer até agora. Tem lugares belíssimos para quem curte a natureza. Agora entrou o outono, é uma estação lindíssima para quem mora nas montanhas. A paisagem fica toda avermelhada, mas isso mais para o final de outubro.

Tem amigos japoneses?
Tenho muitas amigas japonesas. Amizades que fiz em fábricas e continuei cultivando. Elas sempre me mandam emails, postais de ano novo (é um costume aqui), às vezes vêm em casa para ver minha filha. Ultimamente tenho conhecido mães japonesas no parque onde levo minha filha para brincar.

Compartilhe esta notícia! These icons link to social bookmarking sites where readers can share and discover new web pages.
  • YahooMyWeb
  • Technorati
  • StumbleUpon
  • del.icio.us
  • Google
  • Linkter
  • Rec6
  • SphereIt
  • TwitThis

24 Responses to “O Japao e minha casa”


  1. Adorei a entrevista. Obrigada!!!
    Vou linkar esse post no meu blog ;)
    Beijos!!!

    [Reply]


  2. Herika, gostei muito de suas respostas…todas de conteúdo e esclarecedoras.
    Acredito e tenho fé, que seu problema atual, ( preocupação com sua filha) seja resolvido..
    Além disso,já é meio caminho andado, se tu gostas do Japão, isso simplifica as coisas e não se torna um “dragão” de 7 cabeças.

    Cil,Abraço carinhoso.

    [Reply]


  3. Linda entrevista. Um depoimento fantastico. Mulher batalhadora essa!

    Parabens para ela.

    [Reply]


  4. Parabens pela entrevista,CILENE. Impressionante como o famigerado preconceito se espalha como prga pelo mundo…
    Tristes tempos estes…

    [Reply]


  5. Vários parentes de uma amiga minha foram morar no japão, para montar um pé de meia; felizmente, conseguiram. Mas imagino as dificulades que existem. Um abraço.

    [Reply]


  6. PARABÉNS pela entrevista Cilene… adorei todos os depoimentos… show!!!
    Não sabia que isso acontecia por lá e que mulher guerreira, batalhadora é essa!!! Admiro muito mulheres assim…

    Mtos bjusss Ci e um lindo dia

    [Reply]


  7. Cilene e Herika, o melhor relato que eu já vi aqui, sem menor duvida. Eu adoro o Blog da Hérika. Parabéns as duas.

    [Reply]


  8. Uma entrevista muito interessante, Cilene! Gostei muito. Achei a vida bem dura por lá. E essa história da filha não ter pátria (pelo menos por enquanto), complicada!!!
    Bjos…muitas alegrias.

    [Reply]


  9. Q coincidência! No meu post de hoje to contando sobre uma amiga q foi pro Japão há 1 ano.
    Muito bom saber mais sobre a imigração.
    Bjs e bom dia!

    [Reply]


  10. Bela entrevista e simpática entrevistada, mas não entendo pq a pessoa fica tão longe de casa para passar por tudo isso até ter um filho sem pátria :(
    lindo dia
    beijosssssssssssss

    [Reply]


  11. Essa entrevista mostra que devemos lutar por melhores condições de vida e nunca fugir dos problemas porque os há em todos os lugares.Sugiro qeu lute pelos direitos de todos os filhos de estrangeiros que foram morar no Japão e não só por sua filha.A união faz a força!

    [Reply]


  12. Oi Cilene,

    Talvez uma das melhores entrevistas dos últimos tempos..

    Conhecia o termo apátrida, mas confesso nunca ter pensado na dimensão do problema…

    Ótimo dia pra vc, … se bem que.. o seu dia já deve estar acabando né ?.. Qual o fuso em relação ao Brasil ? 5 ou 6 ?

    Bom restinho de dia então ;^)

    [Reply]


  13. Eu conheço algumas pessoas que “fizeram o Japão” com muito sucesso financeiro. Mas ralaram-se alguns anos no trabalho duro e sofreram preconceito. Não tiveram ilusões nem a estupidez de querer “direitos brasileiros” em outros países. Assim que chegaram no objetivo, voltaram ao Brasil e estão muito bem.

    Beijos.

    [Reply]


  14. Puxa, inacreditavel a situacao da filha dela, hein? Nao sabia dessa! Por todas as coisas que ela falou, achei a vida no Japao muito dificil. Depois falam dos Estados Unidos. Esta vendo ai?

    [Reply]


  15. òtima entrevista Cilene. Hérika pelo visto já tem as coisas resolvidas e decididas, o que facilita.
    Amiga obrigada pelo carinho e posso dar uma sugestão, colocar fotos maiores, quem é meio cegueta como eu, não enxerguei quase nada das fotos.
    Sempre que lembro tenho votado, viu? Deixa o selinho no final de todos os postes, nem precisa dizer para votar, quem vem aqui sabe.
    Bjos.

    [Reply]


  16. oi cilene!! oi herika!!! nossa cilene, parabéns pelas perguntas, foram muito utéis….Herika, parabéns pelas suas respostas, eu não sabia que a vida por aí era tão difícil, mas vc supera, torço pra isso…..
    beijos…

    [Reply]


  17. olá minha maiga tudo bem com vc estou voltando as minhas viitas, como vai tudo espero bem, gostei da entrevista, são muita suas entrevistas pois assim ficamos conhecendo mais da vida nada facil q os brasileiros tem lá fora.
    beijos

    [Reply]


  18. Se a própria Herika gostou da entrevista, é porque está boa mesmo! ;)

    [Reply]


  19. Olá Cilene, amei o seu post, dá que pensar!
    Beijinhos

    [Reply]


  20. parabens pela intrevista. um relato que podemos encontrar em pouquissimos lugares!

    [Reply]


  21. Por ser funcionária do Itamaraty, eu já estava a par das histórias dos dekasekis, mas ouvi um testemunho pessoal é muito comovente.

    [Reply]


  22. Acho q iria gostar de ir ao Japão pra trazer trocentas coisas da Hello kitty.
    Big Beijos

    [Reply]


  23. Bela entrevista como de praxe.
    Mostra bem as dificuldades já que nem tudo é sonho…
    Pensamos uma coisa e a realidade crua é outra completamente diferente.
    Parabéns e boa sorte para Herika, fui la no Fragmentos espiar e sua filha é linda.
    Boa sorte com tudo.
    :*

    [Reply]


  24. Gostei da entrevista, mas essa moça tem que dar um jeito de vir embora.

    [Reply]

Google
 


Site Meter

Add to Technorati Favorites